quinta-feira, 11 de novembro de 2010

simples em si mesmas

"as palavras são assim, disfarçam muito, vão se juntando uma com as outras, parece que não sabem onde querem ir, e de repente, por causa de duas ou três, ou quatro que de repente saem, simples em si mesmas, um pronome pessoal, um advérbio, um verbo, um adjectivo, e aí temos a comoção a subir irresistível à superfície da pele e dos olhos, a estalar a compostura dos sentimentos."

José Saramago, em Ensaio sobre a cegueira

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

a imposição da mudança.

"os sentimentos em uso eram os de quem via, portanto os cegos sentiam com os sentimentos alheios, não como cegos que eram, agora, sim, o que está a nascer são os autênticos sentimentos dos cegos."

José Saramago, em Ensaio sobre a cegueira.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

o instante...

Há instantes por que passamos na vida que marcam-nos de forma singular. Instantes que mediam experiências efêmeras... Mas o fazem emprestando sentido eterno. Instantes cuja visitação nos seja tão cara e, ainda assim, contentam-se em ser tão breves. Teimam em ir rápido deixando-nos com tão pouco para compreendê-los. Abandonam-nos! Assim mesmo... Sem rastros. É como se deliberadamente dificultasse-nos o caminho ao seu encontro. Tão peculiares e singulares são a ponto de não permitir-nos verbalizá-los, comunicá-los; a não ser pela marca da paixão instilada na existência do que - então - discerni-se existindo.

domingo, 15 de agosto de 2010

Imensidão vazia, azul.

Era domingo, e uma tarde preguiçosa arrastava-se em meio a um "mar de banzo". No alpendre da casa de um tio, ía no mesmo embalo, embalado por uma rede velha e pelo ranger preguiçoso de seus armadores. Espiava por sob a calha, nuvens brancas - flocos de algodão “Johnson & Johnson”. E íam espaçando-se ao sabor dos ventos pela imensidão vazia, azul.


É, já faz algum tempo que estes flocos impressionavam-me o toque por sua leveza e brancura. Tempo ido cuja infância nos tornava em seres fantásticos, capazes de ver coelhos correndo pelo céu e maçãs que insistiam em não cair - Newton, nem o haviam inventado! Surpreendeu-me a lembrança ao trazer-me à consciência a facilidade com que, então, víamos vida em tudo! Em todos os lugares, sem qualquer pudor, ela vicejava. Até para o vazio encontrávamos adjetivos!

"[...] se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus."
Mt. 18:3

Pena que hoje, para muitos de nós, homens e mulheres "adultos e informados", este tempo seja apenas um passado fantasioso e superado.

Não, as nuvens não são apenas vapores d'água condensados. Eu já as vi e toquei! E fiquem certos, não estou com a razão.

domingo, 8 de agosto de 2010

Outro tipo de reivindicação...

"... se não há uma reivindicação legal, há, todavia, uma reivindicação humana, natural! A que é dada pelo bom senso e pela voz da consciência."

Ippolít, personagem do livro O Idiota de Dostoiévski.

A era do terceiro ginete.

"Estamos vivendo na era do terceiro ginete, o ginete negro, e do cavaleiro que trás na mão uma balança, já que na presente era tudo é pesado nos pratos da balança, ajustado por contratos, toda gente outra coisa não fazendo senão pensar nos seus direitos... 'Uma medida de trigo por um dinheiro e três medidas de cevada por um dinheiro'. Também pensam em deixar o espírito livre, o coração puro e o corpo incólume e todas as subsequentes dádivas de Deus. Ora, claro está que se eles se fundamentam apenas no direito não farão jus a tais dádivas, razão pela qual sobrevirá o ginete amarelo e aquele cujo nome é Morte."

Liébediev, personagem do livro O Idiota de Dostoiévski.

sábado, 31 de julho de 2010

Amigo é coisa pra se guardar...

Sempre bom escutar boa música e ainda melhor o é em belas vozes. Veja aí... Canção da América por Milton Nascimento.

sábado, 24 de julho de 2010

... Para sempre inata e incomunicável.

"Acrescentarei, todavia, que sempre no fundo de todo pensamento humano, de cada pensamento de gênio ou mesmo de cada pensamento que emerge do cérebro como altíssima centelha, alguma coisa há que não pode ser comunicada aos outros, mesmo que fossem preciso volumes e mais volumes a respeito e que se levasse mais de trinta e cinco anos a querer explicar; alguma coisa que não sai do cérebro, que não pode emergir, que aí fica para sempre inata e incomunicável. Morre-se com ela, sem poder participá-la a quem quer que seja. E todavia bem pode ser que essa seja a idéia mais importante entre todas."

Ippolít, personagem do livro O Idiota de Dostoiévski.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Absolutamente!

"Colombo morreu sem quase o haver visto direito [o novo mundo], e sem saber ao certo o que havia descoberto. É a vida que vale, que importa, a vida e nada mais, o processo, a maneira de descobrir, a tarefa perpétua e imorredoura. E não a descoberta em si, absolutamente."

Ippolít, personagem do livro O Idiota de Dostoiévski.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Ensina-me a contar os dias


"E pouco a pouco cada dia foi se tornando mais precioso para mim, à medida que o dia ia passando e eu me dava conta disso direitinho.


Príncipe Míchkin, personagem do livro O Idiota de Dostoiévski.

terça-feira, 13 de julho de 2010

domingo, 11 de julho de 2010

É como andar de bicicleta!

Ao aprendermos a andar de bicicleta o que mais perseguimos é o equilíbrio. Esforçamo-nos para não balançarmos, seguimos tensos, amedrontados, com toda a musculatura enrijecida, uma verdadeira batalha contra a menor possibilidade de oscilação. Nem para um lado, nem para outro, é o embate. Convencemo-nos de que agindo assim atingiremos a segurança do movimento, perfeito. Contudo, paremos ... O que garante esse tal movimento não é outra coisa se não a oscilação entre os lados?! Movimento, é inerente ao equilíbrio!

Dois tipos de homens

Penso mesmo que há apenas dois tipos de homens, os que são ignorantes e os que sabem que o são. Para mim, a verdadeira distinção está aí... saber-se ignorante.

sábado, 3 de julho de 2010

... E entrei.

O que aqui dentro há não é mais a razão do temor... Há algum tempo, abri a porta e entrei. Se antes ignorava, já não ignoro mais. Não dá! Verdade é que existir em ânsia de ser, nunca sendo, é inferno!

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Primeira Lei de Newton


"Como lhe ocorreria a idéia de que vai caindo sem cessar, ele que não faz outra coisa se não seguir atrás de seu nariz?"


João Clímacus, em Migalhas Filosóficas de Søren Kierkegaard.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Cristianismo, perverção da Verdade!?

Em nome do cristianismo também tem sido dada vazão às mais perversas manifestações de virtude. Nossas mais terríveis compulsões conseguem fácil e sutilmente escamotear-se nas mais piedosas virtudes! Apresentam-se, na maioria das vezes, enredando-nos no mais perigoso dos enganos: o de acharmo-nos justificados por pensarmos falar 'em nome de Deus'!

"A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça."
Rm 1:18

Portanto, não vos escuseis, também vós, de tal julgamento!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Grosseira satisfação


"Não há no mundo coisa mais difícil do que a sinceridade e mais fácil do que a lisonja. Se à sinceridade se mistura a mais mínima nota falsa, surge imediatamente a dissonância e, atrás dela... o escândalo. Ao passo que a lisonja, ainda que seja falsa até à última nota, torna-se simpática e ouve-se com satisfação: com satisfação grosseira, sim, mas com satisfação."


Ivanovich Svidrigáilov, personagem do livro Crime e Castigo de Dostoiévski.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Pôr-me-ei em busca!


"...eu o considero como um desses homens que prefeririam ser cortados em pedaços do que serem abatidos, e olhariam sorrindo para seus algozes, contanto que possuíssem uma fé qualquer ou acreditassem em Deus. Pois bem, encontre estas coisas e viverás!"


Porfíri Pietróvitch, personagem do livro Crime e Castigo de Dostoiévski.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Qual?


"...porque todo homem precisa ter um lugar para onde ir!"


Raskólhnikov, personagem do livro Crime e Castigo de Dostoiévski.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

A Pecabilidade entrou no mundo...

"Com o pecado original de Adão, o pecado entrou no mundo. Ainda que tal afirmação seja comum, traduz um juízo de certo modo superficial que muito ajudou para o nascimento de equívocos cheio de erros. Não há dúvida de que o pecado entrou no mundo, porém sob esta formulação o fato não é concernente especificamente a Adão. Para sermos estritos e corretos, antes deveremos afirmar que, com o pecado original de Adão, a pecabilidade entrou em Adão."

Søren Kierkegaard.

domingo, 6 de junho de 2010

Uma mentira vital

O homem está literalmente dividido em dois: tem consciência de sua esplêndida e ímpar situação de destaque na natureza, dotado de uma dominadora majestade e, no entanto, retorna ao interior da terra, uns sete palmos, para cega e mudamente apodrecer e desaparecer para sempre. Estar num dilema desses e conviver com ele é assustador. [...] têm razão, absoluta razão, aqueles que acham que uma plena compreensão da condição humana levaria o homem à loucura.”

A hostilidade contra a psicanálise, no passado, hoje e no futuro, será sempre uma hostilidade contra o reconhecimento de que o homem vive à custa de mentir para si mesmo sobre si mesmo e sobre o mundo, e de que o caráter [...] é uma mentira vital.”

Ernest Becker, em A Negação da Morte.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Crer sem dor...

Bendito
Louvados sejas Deus meu Senhor,
porque o meu coração está cortado a lâmina,
mas sorrio no espelho ao que,
à revelia de tudo, se promete.
Porque sou desgraçado
como um homem tangido para a forca,
mas me lembro de uma noite na roça,
o luar nos legumes e um grilo,
minha sombra na parede.
Louvado sejas, porque eu quero pecar
contra o afinal sítio aprazível dos mortos,
violar as tumbas com o arranhão das unhas,
mas vejo Tua cabeça pendida
e escuto o galo cantar
três vezes em meu socorro.
Louvado sejas porque a vida é horrível,
porque mais é o tempo que eu passo recolhendo despojos,
– velho ao fim da guerra como uma cabra –
mas limpo os olhos e o muco do meu nariz,
por um canteiro de grama.
Louvados sejas porque eu quero morrer,
mas tenho medo e insisto em esperar o prometido.
Uma vez, quando eu era menino, abri a porta de noite,
a horta estava branca de luar
e acreditei sem nenhum sofrimento.
Louvado sejas!

Adélia Prado

segunda-feira, 31 de maio de 2010

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Minha opnião?

Verdade, crendo que existe, deseje-a e a persiga com todas as tuas forças! Perspicácia, havendo, sirva-se dela para discernir as motivações da alma. Paixão, por ela serás arrebatado dos grilhões da ilusão da segurança. Conflito, não existe sem dor, e estranhamente o fará compreender quanta força pode haver nas fragilidades.

quinta-feira, 18 de março de 2010

No que tens esperança?

Trecho de um belo diálogo, extraído do filme Senhor dos Anéis, entre Sam e Frodo.

Sam: Eu sei. Está tudo errado. Por certo nós não deviamos nem estar aqui. Mas nós estamos. É como nas grandes histórias, Mr. Frodo. Aquelas que realmente importam. Elas são cheias de escuridão e perigo. E algumas vezes você não quer saber o final. Porque, como o final poderia ser feliz? Como poderia o mundo voltar ao jeito que era quando tanto mal aconteceu?
Mas o final é só uma coisa passageira, essa sombra. Até a escuridão deve passar. Um novo dia virá. E quando o sol brilhar, ele brilhará ainda mais claro. Essas são as histórias que ficam com você. Que significam alguma coisa, mesmo você sendo muito pequeno para entender porque. Mas eu acho, Mr. Frodo, que entendo porque. Agora eu entendo. As pessoas nessas histórias tiveram muitas chances de voltar, de desistir, mas não fizeram. Eles continuaram porque eles tinham esperança em alguma coisa.

Frodo: Nós temos esperança em que, Sam?

Sam: Existe bem nesse mundo, Mr. Frodo. E vale a pena lutar por ele.

domingo, 10 de janeiro de 2010

O Verdadeiro Mistério

“Receber Deus como Juiz e Advogado” (minha impressão acerca da mente de Jó)

Quem é que questiona Deus se não aquele para o qual Ele faz diferença?

Seu mundo estava em cacos. Não havia mais nada que fizesse sentido. Quase tudo o que tinha e no que acreditava, ou já havia ruído, ou estava ruindo. Contudo, ainda restava-lhe uma coisa: sua consciência! E nela, finalmente, o desejo de alcançar a Verdade, de compreender o sentido de sua existência - humana.

Curioso que foi aí mesmo, em meio à agitação da alma, da dor, diante do desespero que a loucura fez-se sanidade, que a impossibilidade tornou-se possibilidade. Deus, juiz, revelou-se advogado. À alma que jazia à sombra da morte foi-lhe dado graciosamente conhecer o mistério da Verdade!