"Natureza é uma força que inunda como os desertos."
Manoel de Barros
*(da série 'No Ver-só do Olhar')Porque a mim não me basta ouvir as palavras do pregador. É preciso torná-las minhas! Porque os caminhos são os mesmos apenas conquanto sejam exteriormente. Na alma, todavia, serão singulares.
"Natureza é uma força que inunda como os desertos."
Manoel de Barros
*(da série 'No Ver-só do Olhar')
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"Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo."
Salmos, 19 : 2 a 4a.
"De modo que eu talvez seja ainda mais 'vivo' que vós. Olhai melhor! Nem mesmo sabemos onde habita agora o que é Vivo, o que Ele é, como se chama. Deixai-nos sozinhos, sem um livro, e imediatamente ficaremos confusos, perder-nos-emos; não saberemos a quem aderir, a que nos atermos, o que amar e o que odiar, o que respeitar e o que desprezar. Para nós é pesado até ser gente, gente com corpo e sangue autênticos, próprios; temos vergonha disso, consideramos tal fato um opróbrio e procuramos ser uns homens gerais que nunca existiram. Somos natimortos, e há muito que já não nascemos de pais vivos, e isso nos agrada cada vez mais. Em breve, inventaremos algum modo de nascer de uma idéia."
Fiodor Dostoiévski, em Memórias do Subsolo.
"Quando a realidade me entra pelos olhos, o meu pequeno mundo desaba."
Luís da Silva, personagem do livro Angústia de Graciliano Ramos.
"Os modernos mestres da ciência, bem como os antigos mestres de religião, advogam a necessidade de se começar toda e qualquer investigação por um fato positivo. Eles começavam pelo pecado – fato esse tão positivo quanto as batatas. Quer o homem pudesse ou não ser banhado em águas miraculosas, não havia dúvida de que, de qualquer forma, essa ablução era necessária. No entanto, certos líderes religiosos em Londres, não meros materialistas, começaram atualmente a negar, não tanto a muito discutível água, mas a indiscutível sujeira. Alguns dos novos teólogos discutem o pecado original, que é a única parte da teologia cristã que pode ser realmente provada. Certos seguidores do Rev. R. J. Campbell, na sua quase excessiva e fastidiosa espiritualidade, admitem a pureza divina, que não pode ser vista nem mesmo em sonhos, mas negam essencialmente o pecado humano, que pode ser visto a toda hora nas ruas. Os maiores santos, assim como os céticos mais arraigados, tomavam, igualmente, o mal positivo como ponto de partida para a sua argumentação. Se é verdade (como de fato é) que um homem pode sentir uma estranha felicidade ao esfolar um gato, então o filósofo religioso pode fazer apenas uma dessas duas deduções: ou deve negar a existência de Deus, como fazem todos os ateus, ou deve negar a presente união entre Deus e esse homem, como todos os cristãos fazem. Os novos teólogos, no entanto, julgam ter encontrado uma solução altamente racional: negar o gato."
G. K. Chesterton, em Ortodoxia.
"as palavras são assim, disfarçam muito, vão se juntando uma com as outras, parece que não sabem onde querem ir, e de repente, por causa de duas ou três, ou quatro que de repente saem, simples em si mesmas, um pronome pessoal, um advérbio, um verbo, um adjectivo, e aí temos a comoção a subir irresistível à superfície da pele e dos olhos, a estalar a compostura dos sentimentos."
José Saramago, em Ensaio sobre a cegueira
"os sentimentos em uso eram os de quem via, portanto os cegos sentiam com os sentimentos alheios, não como cegos que eram, agora, sim, o que está a nascer são os autênticos sentimentos dos cegos."
José Saramago, em Ensaio sobre a cegueira.
"... se não há uma reivindicação legal, há, todavia, uma reivindicação humana, natural! A que é dada pelo bom senso e pela voz da consciência."
Ippolít, personagem do livro O Idiota de Dostoiévski.
"Estamos vivendo na era do terceiro ginete, o ginete negro, e do cavaleiro que trás na mão uma balança, já que na presente era tudo é pesado nos pratos da balança, ajustado por contratos, toda gente outra coisa não fazendo senão pensar nos seus direitos... 'Uma medida de trigo por um dinheiro e três medidas de cevada por um dinheiro'. Também pensam em deixar o espírito livre, o coração puro e o corpo incólume e todas as subsequentes dádivas de Deus. Ora, claro está que se eles se fundamentam apenas no direito não farão jus a tais dádivas, razão pela qual sobrevirá o ginete amarelo e aquele cujo nome é Morte."
Liébediev, personagem do livro O Idiota de Dostoiévski.
"Acrescentarei, todavia, que sempre no fundo de todo pensamento humano, de cada pensamento de gênio ou mesmo de cada pensamento que emerge do cérebro como altíssima centelha, alguma coisa há que não pode ser comunicada aos outros, mesmo que fossem preciso volumes e mais volumes a respeito e que se levasse mais de trinta e cinco anos a querer explicar; alguma coisa que não sai do cérebro, que não pode emergir, que aí fica para sempre inata e incomunicável. Morre-se com ela, sem poder participá-la a quem quer que seja. E todavia bem pode ser que essa seja a idéia mais importante entre todas."
Ippolít, personagem do livro O Idiota de Dostoiévski.
"Colombo morreu sem quase o haver visto direito [o novo mundo], e sem saber ao certo o que havia descoberto. É a vida que vale, que importa, a vida e nada mais, o processo, a maneira de descobrir, a tarefa perpétua e imorredoura. E não a descoberta em si, absolutamente."
Ippolít, personagem do livro O Idiota de Dostoiévski.
"E pouco a pouco cada dia foi se tornando mais precioso para mim, à medida que o dia ia passando e eu me dava conta disso direitinho.
Príncipe Míchkin, personagem do livro O Idiota de Dostoiévski.
"Como lhe ocorreria a idéia de que vai caindo sem cessar, ele que não faz outra coisa se não seguir atrás de seu nariz?"
João Clímacus, em Migalhas Filosóficas de Søren Kierkegaard.
"Não há no mundo coisa mais difícil do que a sinceridade e mais fácil do que a lisonja. Se à sinceridade se mistura a mais mínima nota falsa, surge imediatamente a dissonância e, atrás dela... o escândalo. Ao passo que a lisonja, ainda que seja falsa até à última nota, torna-se simpática e ouve-se com satisfação: com satisfação grosseira, sim, mas com satisfação."
Ivanovich Svidrigáilov, personagem do livro Crime e Castigo de Dostoiévski.
"...eu o considero como um desses homens que prefeririam ser cortados em pedaços do que serem abatidos, e olhariam sorrindo para seus algozes, contanto que possuíssem uma fé qualquer ou acreditassem em Deus. Pois bem, encontre estas coisas e viverás!"
Porfíri Pietróvitch, personagem do livro Crime e Castigo de Dostoiévski.